domingo, 26 de maio de 2013

Voltei para casa

            Eu já havia desistido deste sentimento. Para alguém que perdeu tudo mais de uma vez como eu. Para alguém que só herdou o sangue e a espada. A causa ficou pequena. Por que eu não tinha mais ninguém para proteger.
           A nossa casa nas colinas do norte. O calor do fogo da lareira. O jantar a mesa. Nossas brincadeiras de criança. O irmão que a vida me deu. E que eu tratei de amar tanto. Lembra de quando ouvíamos histórias ao redor da fogueira. A beira do lago da árvore branca. Lembra?
           Lembra quando saímos no cavalo de nosso pai para cavalgar até o mar? E depois lutávamos com pedaços de pau. Acreditando nos sonhos de ser cavaleiros do rei. Eu só uma menina feliz por ter encontrado uma nova família. Você só um menino muito sério para sua idade.
           Lembra de quando ficamos de frente para o rei? Junto de todos aqueles cavaleiros. Lembro da sua alegria e da minha preocupação. Lembro da guerra escurecendo. Levando nossa casa para muito longe de nós. Levando nossos brinquedos de madeira para um tempo antigo e esquecido.
           A neve do norte já não possuía nossos passos. E o jantar em nossa casa era só uma memória de tempos de paz. Quando o frio veio eu ainda tinha você. Quando a dor chegou podia lutar para voltar para casa. Que irônico. Nós sempre quisemos ser grandes. E depois eu só quis me esconder em algum lugar com você. Esperar as trevas irem embora. Você nunca aceitaria. Meu honrado cavaleiro do rei. Você nunca aceitaria...
           E quando eu perdi você. Quando me disseram que ficou para trás. Perdido na neve. Perdido no tempo. Como? Se eu podia ouvir seu riso no jantar. Como? Se eu me virava e via sua silhueta na janela. Como? Se sua voz ecoava na minha memória até hoje.
           Eu resolvi voltar para casa. Para o  que restou de nossa casa. Não me importava mais a causa. Não me importava mais o rei. Eu só queria saber se encontraria aquele seu brinquedo favorito no baú do quarto. Eu só queria saber se ficara algo físico no mundo para lembrar de você. Para eu sentir que te tocava de novo. Para eu me arrepender ainda mais dos abraços que não te dei.
           “O que faz aqui?” Você pergunta enquanto abre a porta.
           Só consigo correr para você. Só consigo te abraçar para ter certeza de que está vivo.
           “Estou bem... Só quis passar em casa primeiro. Antes de ir atrás de você.”
           Não consigo responder. Não tenho voz para outra coisa que não chorar. Eu que não chorei nem quando você se foi. Eu que guardei essas lágrimas como certeza de que tinha algo seu. Nem que fosse a dor de sua perda.
           “Não vamos mais voltar... Por favor! Vamos ficar aqui. A guerra já está no fim... O Norte já está seguro.”
           “Temos nosso juramento...”
           Então olho seus grandes olhos verdes. Seus cabelos castanhos caindo nos olhos.
           “Há algo diferente em você...Uma bengala.”
           “Não posso mais ser um soldado. Isso mudou.”
           Você me aponta a perna direita. Não vejo nada a princípio. Então me mostra que até o joelho só há metal. Eu deveria estar triste. Porém dou graças a Deus pela primeira vez na vida.
           E então eu lhe dou um beijo e você o retribui.
           “Vamos ter de ficar?”
           “Sim, vamos.”
            E eu sinto seus braços em volta de mim. Eu que havia desistido. Voltei para casa.


Comentário da autora:
Estava ouvindo Shannon LaBrie - Calls me Home. 
Linda música....

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