Se eu pudesse gritar
bem alto, tão alto que me ouviriam do outro lado do mundo, será que
adiantaria? Será que essa tristeza se assustaria e me deixaria em
paz.
Existem tantas e
tantas pessoas sofrendo tanto, deitadas em camas de hospitais,
mutiladas e perdidas, prostituídas e famintas. Eu tenho tanto. Eu
tenho amor, uma casa, um emprego, faculdade e alguns bons amigos.
Porque então esse buraco? Esse buraco escuro me consumindo ao longo
de dias, meses e anos que nem consigo lembrar de quando entrou em
mim.
Eu poderia dizer que
foi a morte do meu pai, mas sei que foi antes. Muito antes quando era
bem pequena e já sonhava com mundos que não existiam. Sonhava com
florestas verdes de solo escuro e árvores sussurrantes. Sonhava com
minha Nárnia sem nem conhecer esse nome. E esperava do fundo do meu
coração de 8 anos de idade que se abrisse um portal para esse mundo
na sombra da janela feita pela luz do poste à meia noite no meu
quarto.
O portal nunca se
abriu. E eu não o quero mais pois já não sou aquela criança
corajosa capaz de enfrentar o mundo só com seu sopro e um lápis.
Não sou mais aquela criança com vontade de voar e de enfrentar
dragões.
Eu não fiz escolhas
tão erradas, eu nunca me droguei, nunca fiquei bêbada, nem tenho
vontade. Eu nunca briguei com alguém a tapas ou falei palavrões
muito alto com as pessoas erradas. Eu nunca foi promíscua e nem fiz
besteiras. Não estou lamentando isso. De jeito nenhum, nem acho que
estejam aí os meus problemas.
Meus problemas estão
no dia a dia estafante, no escritório sem janelas, na mesa do meu
trabalho cheia de papelada e no meu computador com projetos que
sempre cumpro muito bem. Sim, pois afinal eu sou uma moça exemplar.
Meus problemas estão nas horas de aula sobre assuntos que não fazem
sentido para mim. Simples fato de uma pessoa que gosta de ler e
escrever tentar lidar com números e dados de redes, fios,
estatísticas e configurações.
Simples fato de eu ter
escolhido a profissão/faculdade errada e ter insistido e ainda
insistir em terminar para depois seguir meus sonhos. O PROBLEMA é
que esse depois está se alongando tanto. O meu comodismo está
crescendo tanto. A sensação de covardia se remexendo em meu
estômago. E se quando chegar a hora eu inventar outra desculpa? O
que aconteceu com a criança corajosa que eu fui um dia? Meus dragões
de papel estão tão ferozes e macabros que me encolho só de olhar
para eles.
Bom, mas pelo que
percebi meus problemas começaram antes. Lembro que me perguntava aos
meus dez anos porque as pessoas viviam de forma tão sem graça.
Trabalhavam, estudavam tinham suas famílias e um dia morriam de
velhas ou por outro motivo. Onde estão as grandes causas dos meus
contos de fantasia? Nenhum mar para ser desbravado em um barco a
vela. Nenhuma bruxa para ser perseguida. Nenhum sombra para se
descobrir o nome. Como coisas que não existem e parecem “ruins”
podem ter iniciado esse buraco tão vasto dentro de mim, essa ânsia
do que não existe. Pergunto-me se meu pai me entenderia se ele
estivesse aqui. Por que ele também vivia no mundo da lua e a culpa é
dele eu gostar de fantasia e sonhos.
Não sei mais qual o
problema. Sou EU afinal, mas como sair disso? Se eu pudesse gritar
bem alto, tão alto que me ouviriam do outro lado do mundo, será que
adiantaria?