quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Se eu pudesse gritar bem alto


Se eu pudesse gritar bem alto, tão alto que me ouviriam do outro lado do mundo, será que adiantaria? Será que essa tristeza se assustaria e me deixaria em paz.
Existem tantas e tantas pessoas sofrendo tanto, deitadas em camas de hospitais, mutiladas e perdidas, prostituídas e famintas. Eu tenho tanto. Eu tenho amor, uma casa, um emprego, faculdade e alguns bons amigos. Porque então esse buraco? Esse buraco escuro me consumindo ao longo de dias, meses e anos que nem consigo lembrar de quando entrou em mim.
Eu poderia dizer que foi a morte do meu pai, mas sei que foi antes. Muito antes quando era bem pequena e já sonhava com mundos que não existiam. Sonhava com florestas verdes de solo escuro e árvores sussurrantes. Sonhava com minha Nárnia sem nem conhecer esse nome. E esperava do fundo do meu coração de 8 anos de idade que se abrisse um portal para esse mundo na sombra da janela feita pela luz do poste à meia noite no meu quarto.
O portal nunca se abriu. E eu não o quero mais pois já não sou aquela criança corajosa capaz de enfrentar o mundo só com seu sopro e um lápis. Não sou mais aquela criança com vontade de voar e de enfrentar dragões.
Eu não fiz escolhas tão erradas, eu nunca me droguei, nunca fiquei bêbada, nem tenho vontade. Eu nunca briguei com alguém a tapas ou falei palavrões muito alto com as pessoas erradas. Eu nunca foi promíscua e nem fiz besteiras. Não estou lamentando isso. De jeito nenhum, nem acho que estejam aí os meus problemas.
Meus problemas estão no dia a dia estafante, no escritório sem janelas, na mesa do meu trabalho cheia de papelada e no meu computador com projetos que sempre cumpro muito bem. Sim, pois afinal eu sou uma moça exemplar. Meus problemas estão nas horas de aula sobre assuntos que não fazem sentido para mim. Simples fato de uma pessoa que gosta de ler e escrever tentar lidar com números e dados de redes, fios, estatísticas e configurações.
Simples fato de eu ter escolhido a profissão/faculdade errada e ter insistido e ainda insistir em terminar para depois seguir meus sonhos. O PROBLEMA é que esse depois está se alongando tanto. O meu comodismo está crescendo tanto. A sensação de covardia se remexendo em meu estômago. E se quando chegar a hora eu inventar outra desculpa? O que aconteceu com a criança corajosa que eu fui um dia? Meus dragões de papel estão tão ferozes e macabros que me encolho só de olhar para eles.
Bom, mas pelo que percebi meus problemas começaram antes. Lembro que me perguntava aos meus dez anos porque as pessoas viviam de forma tão sem graça. Trabalhavam, estudavam tinham suas famílias e um dia morriam de velhas ou por outro motivo. Onde estão as grandes causas dos meus contos de fantasia? Nenhum mar para ser desbravado em um barco a vela. Nenhuma bruxa para ser perseguida. Nenhum sombra para se descobrir o nome. Como coisas que não existem e parecem “ruins” podem ter iniciado esse buraco tão vasto dentro de mim, essa ânsia do que não existe. Pergunto-me se meu pai me entenderia se ele estivesse aqui. Por que ele também vivia no mundo da lua e a culpa é dele eu gostar de fantasia e sonhos.
Não sei mais qual o problema. Sou EU afinal, mas como sair disso? Se eu pudesse gritar bem alto, tão alto que me ouviriam do outro lado do mundo, será que adiantaria?

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Mude seu olhar

Se me dissessem que o caminho que escolhi me traria até aqui eu teria escolhido o outro. Se me dissessem que eu chegaria ao final da faculdade com a sensação de que não aprendi nada e nem quero mais aprender eu não teria acreditado.
Somos muito jovens e teimosos para fazer nossas escolhas aos 17 anos. Isso não é justo. Aos 17 não temos a maturidade que temos aos 21, pode ser um curto período de tempo mas é uma verdade que estou sentindo na pele.
Pais e mães, escolas, professores não digam mais para suas crianças que quando o teste vocacional delas atingiu o patamar máximo na área de artes foi um erro ou é só um hobby. Não digam isso. Não falem de cursos como dança, música, estilismo e moda como se fossem diferentes ou inferiores às famosas ciências e engenharias. São cursos como todos os outros, tem alunos como todos os outros. Vejo tantas e tantas pessoas se gabando de fazerem os cursos reconhecidos como "bons" pela sociedade: Direito, Medicina, Engenharia e essas pessoas não são nenhum pouco felizes. Talvez venham a ser péssimos profissionais e ainda podemos estar perdendo um "novo John Lennon"!
A sociedade está em uma fase de mudança, então proponho que mudemos nosso olhar acima de tudo.
Posso não gostar da minha graduação, posso ser frouxa para não ter largado, eu só não queria decepcionar tantas pessoas que me apoiaram e me acomodei com minhas pequenas vitórias. Por isso escolhi terminar e depois fazer outra. E é por pessoas como eu que não tem coragem/força que eu peço, não digam que é um hobby! Incentivem! Não digam que "não dá dinheiro", dinheiro é importante, sim! Mas viver do que se ama não tem preço!
Mudemos esse olhar acusador/preconceituoso que não vê na arte toda a sua maravilha e beleza. Que só vê cifras e números e títulos e...Coisas que passam... Uma vida feita com amor pelo trabalho é importante, faz com que você sinta que fez a coisa certa. Não só esperar o fim de semana para fazer o que você quis fazer a semana inteira! Há tantas e tantas pessoas vivendo assim ganhando muito dinheiro e no final elas vão olhar para trás e seus dias felizes foram poucos se contar que temos apenas 8 dias de folga no mês.
Que possamos mudar tudo e todos nós e acima de tudo mudar quem somos e como vemos as coisas. Que sejam olhos de admiração pelo mundo e não olhos-filtro que só enxergam preto e branco e só sabem julgar.

domingo, 26 de maio de 2013

Voltei para casa

            Eu já havia desistido deste sentimento. Para alguém que perdeu tudo mais de uma vez como eu. Para alguém que só herdou o sangue e a espada. A causa ficou pequena. Por que eu não tinha mais ninguém para proteger.
           A nossa casa nas colinas do norte. O calor do fogo da lareira. O jantar a mesa. Nossas brincadeiras de criança. O irmão que a vida me deu. E que eu tratei de amar tanto. Lembra de quando ouvíamos histórias ao redor da fogueira. A beira do lago da árvore branca. Lembra?
           Lembra quando saímos no cavalo de nosso pai para cavalgar até o mar? E depois lutávamos com pedaços de pau. Acreditando nos sonhos de ser cavaleiros do rei. Eu só uma menina feliz por ter encontrado uma nova família. Você só um menino muito sério para sua idade.
           Lembra de quando ficamos de frente para o rei? Junto de todos aqueles cavaleiros. Lembro da sua alegria e da minha preocupação. Lembro da guerra escurecendo. Levando nossa casa para muito longe de nós. Levando nossos brinquedos de madeira para um tempo antigo e esquecido.
           A neve do norte já não possuía nossos passos. E o jantar em nossa casa era só uma memória de tempos de paz. Quando o frio veio eu ainda tinha você. Quando a dor chegou podia lutar para voltar para casa. Que irônico. Nós sempre quisemos ser grandes. E depois eu só quis me esconder em algum lugar com você. Esperar as trevas irem embora. Você nunca aceitaria. Meu honrado cavaleiro do rei. Você nunca aceitaria...
           E quando eu perdi você. Quando me disseram que ficou para trás. Perdido na neve. Perdido no tempo. Como? Se eu podia ouvir seu riso no jantar. Como? Se eu me virava e via sua silhueta na janela. Como? Se sua voz ecoava na minha memória até hoje.
           Eu resolvi voltar para casa. Para o  que restou de nossa casa. Não me importava mais a causa. Não me importava mais o rei. Eu só queria saber se encontraria aquele seu brinquedo favorito no baú do quarto. Eu só queria saber se ficara algo físico no mundo para lembrar de você. Para eu sentir que te tocava de novo. Para eu me arrepender ainda mais dos abraços que não te dei.
           “O que faz aqui?” Você pergunta enquanto abre a porta.
           Só consigo correr para você. Só consigo te abraçar para ter certeza de que está vivo.
           “Estou bem... Só quis passar em casa primeiro. Antes de ir atrás de você.”
           Não consigo responder. Não tenho voz para outra coisa que não chorar. Eu que não chorei nem quando você se foi. Eu que guardei essas lágrimas como certeza de que tinha algo seu. Nem que fosse a dor de sua perda.
           “Não vamos mais voltar... Por favor! Vamos ficar aqui. A guerra já está no fim... O Norte já está seguro.”
           “Temos nosso juramento...”
           Então olho seus grandes olhos verdes. Seus cabelos castanhos caindo nos olhos.
           “Há algo diferente em você...Uma bengala.”
           “Não posso mais ser um soldado. Isso mudou.”
           Você me aponta a perna direita. Não vejo nada a princípio. Então me mostra que até o joelho só há metal. Eu deveria estar triste. Porém dou graças a Deus pela primeira vez na vida.
           E então eu lhe dou um beijo e você o retribui.
           “Vamos ter de ficar?”
           “Sim, vamos.”
            E eu sinto seus braços em volta de mim. Eu que havia desistido. Voltei para casa.


Comentário da autora:
Estava ouvindo Shannon LaBrie - Calls me Home. 
Linda música....

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Saudades

Sinto falta do cheiro da terra fresca. Dos meus pés na relva e minhas mãos nas cascas das árvores desse lugar que eu nunca vi com meus próprios olhos. Desse lugar que só existe em meu coração. E quando fico triste sinto saudade de meu cavalo e da minha terra. Sinto falta de galopar até o mar e depois andar pela areia, molhando os pés na água do mar. Naquela praia que só existe aqui dentro de mim.

Eu não tenho cavalo. Eu nunca fui até aquela floresta. Eu nunca ouvi o cantar dos pássaros azuis e nem entrei na catedral. Eu não lembro do nome desses meus amigos fieis. Aqueles que contavam histórias comigo ao redor da fogueira na beira do mar. Eu lembro porém de seus rostos e de como eu ficava feliz quando eles sorriam. Contudo nada disso ocorreu nesta vida.

Aqueles que não acreditam que houve um antes dirão que tenho mente fértil. Seja só imaginação ou não. Essa saudade é real. Seja saudade do que eu vi e ficou para trás. Seja  então para os descrentes somente saudade de coisas que nunca vivi. Seja então saudade... Porém se essas coisas só existem na minha mente porquê meu coração se aperta quando lembro da minha terra, do meu cavalo e daquele mar?

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Sombras e Luz

Eu só queria não ser essa confusão de sombras e luz. Seria mais fácil se eu soubessem quem eu sou. Porém se a dor da dúvida me deixar eu saberei lidar com a resposta se ela negar minhas estrelas e sonhos?  Se ela negar minha sombra... Talvez eu seja mais feliz. Talvez eu me perca em um lugar sem céu.

Não quero.

Eu consultei os sábios e eles me disseram para viver e deixar de lado essas questões estranhas. Elas não tem respostas. Eu consultei os reis e me disseram ser tolice que se esquece com mesa farta e bailes de máscara. Eu consultei meu amigo e ele me disse para esquecer e parar de tolice. Eu consultei você, sombra que me habita e você  disse que a resposta está enterrada em uma catedral de pedras dentro de mim.
Só que eu me perdi no caminho. Fiquei encantada por estrelas e por sonhos de camponeses. Perdi seus passos. Minhas asas foram cortadas.


O que faço agora?

O que faço? Seus olhos azuis são capazes de me dizer? Você ainda tem suas asas e seu casaco negro? Você ainda tem sua espada e ainda fala com dragões e murmura com o vento? Eu perdi estas coisas amigo... Eu não sei onde fica a catedral porque sou uma confusão de veredas tortuosas e florestas claras. Eu não lembro da tua voz...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Madrugada

A madrugada tem cheiro de manhã. O sol logo vai surgir. Acabo de chegar de Nárnia e isso me faz sentir bem. Já estou com saudade de meus amigos de lá, do cheiro da terra, da magia e do mar. Porém está tudo bem. O sol logo vai surgir e trazer um dia com você outra vez.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Toda noite

Eu quero andar sob o sol da manhã em uma terra verde e doce como Nárnia. Eu quero andar ao lado das pessoas que amo e ver seus sorrisos. Eu quero fazer amigos entre povos que contam histórias ao redor da fogueira. Quero cavalgar na chuva e sentir o cheiro da terra. Toda noite eu imagino que estou lá com aqueles que amo. Toda noite eu vou para minha terra mágica.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Se eu fosse uma canção

Se eu fosse uma canção seria uma balada antiga. Sobre amor e guerra. Amizades perdidas e conquistadas. Seria entoada nos salões por povos mágicos? Não sei.  Seria uma canção estranha e pouco harmônica. Traria lágrimas e sorrisos. Espero que fosse uma canção que todos quisessem ouvir novamente.

Meu lar

Às vezes eu só quero gritar. Só quero correr. Correr para longe das coisas. Ter minhas asas de volta. Quando eu caí. Parece que fiquei no chão. Fiquei no chão por tanto tempo que não soube mais levantar. Fiquei imaginando se eu não teria imaginado que vivia em outro lugar. Bateu uma melancolia. Uma saudade daquilo que não sei se existe. Se meu grito ecoasse pelo universo, alguém do meu imaginário antigo lar ouviria? A resposta chegaria até mim? Se chegasse eu saberia que não era imaginário esse lar.
Só que eu encontrei uns olhos da cor do mel. Esses olhos vieram acompanhados de um sorriso encantador e de mãos que me ajudam a levantar se eu caio. Por mais que eu queira saber de onde vim. Por mais que sinta uma melancolia incrivelmente grande em certas tardes. Só voltaria se levasse esses olhos comigo. Só voltaria se você voltasse comigo. Porque meu lar é onde você está.